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A aprovação do fezolinetanto pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para o tratamento de ondas de calor (sintomas vasomotores) moderadas a intensas marca uma mudança de paradigma na abordagem médica da menopausa no Brasil. A avaliação é de Carolina Zendron Machado Rudge, médica especialista em Ginecologia e Obstetrícia pela Febrasgo e professora colaboradora do curso de Medicina da Universidade de Mogi das Cruzes (UMC).
Segundo a docente, a chegada da substância supre uma demanda histórica de pacientes que sofrem com os fogachos, mas possuem contraindicações clínicas para a terapia de reposição hormonal tradicional ou preferem não adotá-la. “Durante muitos anos, as mulheres que não podiam utilizar terapia hormonal tinham poucas alternativas realmente eficazes. O fezolinetanto inaugura uma nova classe terapêutica baseada no entendimento da neurobiologia da menopausa e reforça que essa fase merece um tratamento centrado na qualidade de vida”, destaca Carolina.
Diferente das terapias tradicionais, o novo medicamento não possui base hormonal. Ele atua diretamente no sistema nervoso central, bloqueando os receptores da neurocinina 3 (NK3) localizados no hipotálamo — a região do cérebro responsável pelo controle da temperatura corporal.
A médica da UMC explica que a queda natural do estrogênio durante a menopausa desregula o centro térmico do corpo, tornando-o excessivamente sensível. O papel do fármaco é restabelecer esse equilíbrio. “Trata-se de algo inovador. Até então, as alternativas não hormonais disponíveis eram antidepressivos, gabapentina ou clonidina, medicamentos criados originalmente para outras finalidades médicas e que apresentavam eficácia limitada ou mais efeitos adversos no tratamento das ondas de calor”, pontua a ginecologista. Como benefício secundário, o controle dos suores noturnos melhora a qualidade do sono e a disposição diária das pacientes.
Apesar do avanço, a especialista faz um alerta importante: o fezolinetanto é um tratamento direcionado e não atua em outras frentes decorrentes da deficiência hormonal crônica. O medicamento não trata o ressecamento vaginal, dores em relações sexuais, perda de massa óssea (osteoporose), redução da libido ou alterações na pele.
“O remédio não substitui os benefícios sistêmicos da terapia hormonal quando esta é indicada, o que não diminui em nada a relevância desse avanço na Medicina”, pondera a professora. Para ela, a expansão do arsenal terapêutico combate mitos sobre o envelhecimento feminino. “Ter uma opção eficaz e não hormonal pode fazer com que mais mulheres procurem ajuda médica e compreendam que não precisam aceitar sintomas incapacitantes como algo natural”, conclui.